O coletivo Pitar na Cangosteira, constituído por mim e pelos artistas Max Fernandes e Pedro Bastos, decorreu de um desejo partilhado de criar espaços de convivência, de troca crítica e de experimentação artística, dando continuidade a preocupações comuns anteriormente exploradas em práticas individuais desenvolvidas no campo do cinema, da pintura, da performance, da instalação e da escrita.
O projeto materializou-se em caminhadas de longa duração, frequentemente iniciadas antes do amanhecer, em pontos de partida situados ao longo da linha ferroviária ou nas margens dos rios Ave e Vizela. Esses percursos, desenvolvidos sem destino previamente definido, assentaram numa abertura deliberada ao acaso e às contingências do território. As trajetórias privilegiaram a observação e a experiência direta do espaço, e foram construídas a partir de decisões situadas, de encontros fortuitos, de indicações de habitantes e da atenção aos elementos da paisagem.
A partir desse projeto e da minha própria experiência pessoal, o caminhar foi por mim mobilizado como procedimento artístico e metodológico, capaz de instaurar relações prolongadas com o território. Através dele, passei a explorar criticamente as marcas da industrialização, as transformações ambientais, as dinâmicas de privatização do espaço e as memórias do trabalho. Simultaneamente, esta prática levou-me a refletir sobre como o caminhar, enquanto prática histórica e política não é universal ou intrinsecamente livre, mas uma ação que é atravessada pelo poder, pelas condições materiais específicas e por estruturas simbólicas que regulam o acesso, a circulação e a permanência dos corpos no espaço público e privado.
Pitar na cangosteira (2020-2022)



Cangosta. Caminho em torno do Rio Pele em direção à fábrica. Este caminho foi criado pelo pisotear diário dos/ as trabalhadores/as. Fotografia de Ludgero.
Durante uma das cangostas. Fotografia de Ludgero Almeida.
Perspetiva do Rio Ave. Still de um vídeo de Pedro Bastos.


Montagem a partir de duas perspetivas das traseiras de uma das ruínas fabris durante uma cangosta. Stills de um vídeo de Pedro Bastos.


Entrada numa ruína industrial. Fotografia de Max Fernandes.
Perspetiva do Rio Ave nas traseiras de uma ruína fabril. Fotografia de Pedro Bastos.