Consiste numa série de esculturas escavadas em pedra de grafite nas quais os rostos públicos — expressos num conjunto de monumentos — surgem distorcidos e representados em negativo. Ao trazerem uma ambivalência entre o côncavo e o convexo, uma oscilação entre a face positiva e o seu avesso, esta obra interpela o papel social que a máscara desempenha nos espaços públicos e privados.
O rosto, constituído por “coordenadas” e “zonas de intensidade” — o orifício da boca, as cavidades dos olhos, as saliências do nariz, as rugas, entre outros elementos — funcionam como pontos de orientação na configuração de paisagens. Essas paisagens estabelecem limites e horizontes: sustentam a fala de quem historicamente teve direito à fala e, inversamente, silenciam aqueles que dela foram excluídos.
Esses vincos, aberturas e fechos do rosto, frequentemente entendidos como marcas neutras de um decalque fiel da face, são reconfigurados em Pedras enquanto Máscaras. Elas deixam de operar como garantias de identidade ou de reconhecimento e passam antes a evidenciar a falha inerente à representação e à tentativa de fixação de uma imagem “verdadeira”. A apreensibilidade da face pública é, deste modo, colocada em causa pela rutura da semelhança, pela reformulação dos traços de individualidade e pela alteração das próprias condições de aparição do rosto.
Pedras enquanto máscaras (2023)


Busto a Narciso Ferreira localizado na Fábrica Sampaio Ferreira. Arquivos do Centro português de Fotografia. Identificação: PT-CPFALV-004411_m0001.

Busto dedicado a Salazar. Identificação: pt-fml-tr-com-2445-001. Arquivos da Casa da Imagem - Fundação Manuel Leão.
Intervenção com barro sobre o busto dedicado ao Cardeal Manoel Gonçalves Cerejeira, localizado em Lousado, Famalicão.




Pedras enquanto Máscaras (2023). Pedra de grafite escavada, cabos de aço e luz direcional. Dimensões variáveis.