O som do enxame (2025)
É um filme-ensaio que investiga criticamente as metáforas orgânicas e mecânicas mobilizadas ao longo da história para pensar a sociedade, o trabalho e a organização do mundo natural. A obra interroga o modo como o biologismo — através das figuras da abelha e da colmeia — e o mecanicismo — associado ao imaginário da máquina industrial — foram utilizados como paradigmas interpretativos para modelar conceções de ordem social, divisão de tarefas, comportamento e hierarquia. Estas analogias contribuíram para naturalizar determinadas formas de organização produtiva, ao mesmo tempo que serviram de legitimação simbólica para processos de expropriação do trabalho e de exploração extrativista.
Estruturado como um ensaio audiovisual, o filme articula diferentes materiais: a memória de um encontro com uma colmeia instalada num mecanismo de ventilação numa ruína industrial, o diálogo com um antigo operário têxtil que se dedicava à apicultura e um conjunto de imagens que incluem observações microscópicas de uma abelha morta e fotografias provenientes de arquivos industriais abandonados. A justaposição destes elementos estabelece correspondências entre o universo biológico e o universo técnico, convocando paralelismos entre o corpo do inseto e o corpo operário, entre o zumbido do enxame e o ruído da maquinaria, e entre a arquitetura do favo e a organização espacial da fábrica.
A partir dessa confrontação, O Som do Enxame problematiza a emergência contemporânea de um imaginário hibridista que tende a dissolver as fronteiras entre organismo e máquina. A obra dirige-se, assim, à tecnofilia associada a esse horizonte, evidenciando as continuidades entre tais narrativas e as lógicas produtivistas que estruturaram o pensamento industrial. Nesse sentido, o filme aponta para as implicações sociais, políticas e ecológicas que acompanham a atual reconfiguração das relações entre vida, técnica e trabalho.








Stills do filme-ensaio O som do enxame (2025).