É um filme-ensaio que reflete sobre os mecanismos de construção da escrita da história associados ao itinerário algodoeiro e sobre os modos como essa narrativa se instaurou no imaginário cultural até a atualidade. A obra mobiliza materiais encontrados — mapas, projetos arquitetónicos e desenhos técnicos — para estabelecer paralelismos entre o olhar aéreo e abstrato dessas ferramentas e a forma como a historiografia seleciona acontecimentos considerados fundacionais, atribuindo-lhes coerência através de determinadas gramáticas e superfícies de inscrição.
Neste contexto, a história é apresentada como um plano no qual se define o que pode ser visto e enunciado. Figuras notáveis são frequentemente fetichizadas como ícones, enquanto as suas ações são fixadas em dispositivos memoriais, no espaço público e no arquivo. Articulada com o poder institucional, político e económico, esta historiografia delimita o campo do discurso, e determina o que deve ser considerado relevante e inteligível.
Ao questionar a narrativa monolítica associada ao itinerário algodoeiro, MapaHistória evidencia as exclusões e violências que acompanharam a circulação desta commodity — desde o extrativismo do algodão até à sua integração na fábricas do Vale do Ave. Frequentemente naturalizadas ou relegadas para o passado, essas violências são aqui reinscritas como parte constitutiva dessa história. Perante as políticas de representação, o filme reivindica o reconhecimento das ausências e a imaginação de narrativas, mapas e histórias alternativas.
Mapahistória (2022)





